NÃO PRECISAMOS DA COPA AMÉRICA, ELA NÃO SERVE PARA NADA

"Quando aumenta a circulação de pessoas, a tendência é aumentar a taxa de contaminação. Um evento [Copa América] desse ainda pode representar uma ameaça de entrada da variante indiana. O que precisamos ter é um controle de fronteira mais rígido. Sem isso, corremos o risco de aumentar a circulação do vírus e, consequentemente, o número de óbitos". Frase de Moura Silva, epidemiologista da UFMA, para a BBC Brasil, em 01 de junho. A coluna poderia terminar aqui, pois a ciência é que importa e não opiniões alheias a questões de ordem científica.

O motivo da coluna está em questionar o argumento que critica a realização da Copa. Muitos afirmam que vários jornalistas a criticam porque os direitos de transmissão pertencem ao SBT, na televisão aberta. Reduzir a discussão ao problema de mídia é pobre. É desrespeitar cada uma das vítimas e seus familiares. O problema é muito maior de quem poderá mostrar os jogos ou não.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio

A escolha da sede é um problema de ordem política. Tema que a coluna, faz tempo, vem discutindo, política e futebol não se dissociam. Um argumento amplamente divulgado é a demora para vacinar e eu acrescento, a lentidão. Deixar morrer de uma doença que existe vacina é crime. O governo demorou para assumir a doença, trocou quatro vezes de ministro da saúde, é investigado pela incompetência que gerou quase meio milhão de mortos e em poucas horas aceitou um evento esportivo. O que isso desvela?

É o momento que a postura revela a indignidade do atual desgoverno. Somente um crápula é capaz de vir a público e defender uma competição numa cidade que foi usada como laboratório da morte. Falo de Manaus. Ao mesmo tempo que defende esta insanidade, ameaça a concessão pública do sinal da Rede Globo. O único plano do governo é agenciar a morte. Enquanto fala desta atitude incabível, deixamos de lado das investigações da CPI da COVID; dos escárnios que foi receitar remédio sem comprovação científica; de fazer lobby a normalidade e minimizar os protestos legítimos do 29 de maio.

Mas se o Brasileirão está jogado, por que ser contra a Copa América? Outro argumento que não faz sentido. A coluna é contra a volta do futebol. Mas há de se diferenciar duas coisas. O futebol de clubes é necessário para que o ecossistema do futebol funcione e milhares de pessoas não percam seus empregos. Precisamos debater os protocolos ridículos que não tem efeito prático. Se eles funcionassem não haveria contaminados. Inda assim, é possível entender racionalmente a volta do futebol, por conta de tudo que gira em torno dos clubes. É um ponto, agora, qual a utilidade da Copa América? Nenhuma. Ela classifica para? Nada. Houve uma edição em 2019, e esta edição servirá para sincronizar o calendário sul-americano de seleções com a Eurocopa. Só isso! Logo, completamente inútil.

Então, há um presidente, que desde março de 2020 desdenha a saúde pública, não tem um plano nacional de cuidado com a população, não agiu como homem em seus discursos, ridiculariza a liberdade de imprensa e agora aceita a loucura de fazer sediar uma competição inútil. Colômbia desistiu por causa dos protestos gerados pela reforma tributária, Argentina vive uma situação pandêmica grave, Uruguai e Chile não aceitaram a discussão. Nós que somos recordistas de contaminados e mortos, no continente, como visto na coluna passada (#368) viveremos mais um laboratório da morte. E há quem diga que a revolta é por causa do SBT!

Foto: Divulgação/CBF