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SUPER LIGA EUROPEIA FOI SUPER

O prefixo “super” indica excesso ou acima. Ele também indica outras coisas, como proeminência e superioridade. Para o texto opto pelo sentido de excesso. Também tomarei a liberdade de “portuguesar” ao The Super League, chamando-a de Super Liga, que foi o projeto de reunir algumas das grandes potências do futebol europeu do momento em uma competição. Assunto que dominou a mídia esportiva durante a semana.

A ideia não é ruim. O sistema de franquias nos Estados Unidos e Canadá funciona muito bem. As ligas de futebol americano, basquete, beisebol e de soccer mantêm a expansão, e mesmo com a pandemia, mostram resultados de respeito. Não é possível culpar a pandemia pelo fracasso de modelos de negócio ultrapassados no futebol. Já eram ruins antes da maledicência da COVID-19. Há de se considerar que as ligas fazem parte de um ecossistema diferente do esporte europeu. Consideramos um fato, como são formados os jogadores da base do esporte americano e como são os jogadores da base do futebol europeu? As diferenças que distanciam são maiores que as semelhanças de aproximam.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio
Uma comparação oportuna ouvi durante a semana foi de Antero Greco, no SportCenter, da ESPN Brasil. A criação de uma liga de times poderosos agravaria a desigualdade entre os clubes. O exemplo do jornalista, foi o clássico do pequeno absorvido pelo gigante dentro de uma lógica do capital. Os mercados de bairro que aos poucos são substituídos ou incorporados por grandes redes varejistas, mostra o que poderia acontecer com o futebol europeu. O capital dá a tônica no processo decisório e o capitalismo pulverizou o princípio da disputa entre os iguais. As falas dos envolvidos põe em primeiro lugar o negócio-futebol, mas, seria um erro pensar desta forma?

O futebol é negócio e há várias formas de montá-lo. Mesmo assim, ele precisa respeitar o que é essencial, que é a esportividade. Uma liga elitizada, desconsidera a esportividade em nome do interesse dos envolvidos. O excesso de si mesmo foi o caminho da própria degola que apresentou a inaptidão de pensar o todo envolvido. Exemplo, o Real Madrid só é grande porque existe uma liga que o faz ser grande. A destruição do ecossistema acabaria com a magia que o envolve. A crítica de Jürgen Klopp faz muito sentido, “a banalização dos grandes jogos destrói a áurea que os cercam”.

Para além de todos os argumentos, houve o empenho da imprensa em tecer críticas. Curioso que vi poucos “comentaristas de mídia social” acusando a imprensa de “ideológica”, e ela foi. Via de regra, a massa de jornalistas escolheu um lado e fundamentou suas críticas, transformando os homens de negócios em figuras “non gratas” e antropófagos do futebol. Mas será que esta é uma história de mocinhos e malvadinhos? Evidente que não. Tudo não passou de um grande jogo de interesses.

A influência dos torcedores nas ruas representou um risco de receita. Os contratos assinados possuem outro tipo de peso. A dinâmica do ecossistema já estabelecido também tem seu valor. E a forma a moda de “golpe e rebelião” desvelou bem o lado dos clubes e das federações estão. O futebol nasceu pelos pés e mentes de trabalhadores na Inglaterra, só que o hoje o processo decisório acontece em mesas elitizadas. Para além de tudo o único erro da Super Liga foi o excesso, excesso de arrogância, mas a ideia não é ruim!