(Reprodução/SporTV)

"Quando a casa caiu, seria mas prático virar as cosas para a sua história, assumir um discurso reacionário contra ídolos do rock, pelo mau exemplo dado à juventude, ou posar de vítima de traficantes para comover a opinião pública. Mas essa visão simplista não faz parte de seu ideário […] O uso de drogas normalmente é consequência de desiquilíbrios químicos do organismo, de patologias que se manifestam das mais diversas formas, como ansiedade, pânico, depressão e psicose” (CASAGRANDE; RIBEIRO, 2013, p. 209).

Albio Melchioretto
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A citação do primeiro parágrafo é um dos livros de/sobre Walter Casagrande, ex-jogador, e dos bons e um dos principais comentaristas do Grupo Globo. O livro referenciado é Casagrande e seus demônios. O texto narra a luta diária de Casagrande contra as drogas. A coluna foi pensada a partir das manifestações de ódio diante de Casão. Na rodada de quarta-feira, 21, nos primeiros minutos do jogo das 21h30, inúmeros tuítes chamando o jogador de “cheirador”. Com podemos ser tão hipócritas assim? Vivemos numa sociedade consumidora de álcool, que vive a ineficiência do combate ao tráfico e um comentarista é chamado de “cheirador” por conta de seu comentário futebolístico? Que mundo é este que discriminamos um doente quando discordamos de seu posicionamento. A leitura me fez sentir vergonha da aconsciência de tamanhas bestas.

A questão está na radicalidade do julgamento. O cidadão, o jogador, agora ex-jogador e o comentarista exercem papéis de diferente exercício que se cruzam no julgamento do espectador. Algumas vezes caduco. Adjetivos de condenação política por levantar bandeira, que lhe são de direito, outras pelo peso de estar doente… o grande problema não são apenas os contrários, mas sim, a resolução dos contrários pelo uso da violência.

No programa “Bem amigos”, de 19 de outubro, enquanto era elogiado, no mesmo Twitter, por condenar a frivolidade de Caio Ribeiro (para não usar outro temor) e denunciar a postura pró-estupro que existe neste país, Casão, recebeu inúmeros elogios. Uma pena que parte deles deseja resolver a questão com um “surra”. Aqui está o ponto central da coluna. Por que desejamos resolver nossos problemas através da pancadaria?

Talvez a serenidade daquele que usa o All Star devesse ser exemplo maior que a violência contida em nosso peito.

Dica cultural da coluna:

CASAGRANDE JR., W.; RIBEIRO, G. Casagrande e seus demônios. São Paulo: Globo, 2013.