Coluna do Professor #325, por Albio Melchioretto

(Divulgação)
SE VOCÊ FOR A FESTA DO PÊLO, PENSE NA “BELARUS”, REZE PELA PELA “BERUS”

O futebol tem a magia de nos transportar por diversas partes do mundo e proporciona um encontro com perspectivas culturais diferentes. Nestas viagens a MFTV proporcionou a possibilidade de vermos os torneios da Nicarágua, Armênia e Belarus. O tema de hoje não será o canal em si, mas será o futebol no seu contexto em Belarus. Acompanhei na sexta-feira, 21, Dynamo Brest vs. Belshina Bobruisk refletindo o entorno da bola. Tomo como título, Haiti de Caetano Veloso. A canção que é uma crítica social mordaz a escravidão no Brasil, mas que serve para outros lugares.

Belarus, ou Bielorrússia, é uma das ex-repúblicas soviéticas. O país conta com uma população de aproximadamente 9,5 milhões, e PIB per capita de 6.200 dólares/ano. Para efeito de comparação, na Rússia é de 11 mil e Brasil 8 mil dólares, aproximadamente. No ranking de liberdade de imprensa, que é liderado pela Noruega, a Belarus está na posição 153, e para comparações, o Brasil, 107. Desde 1994, o país é governado por Aleksandr Lukashenko e conserva ainda uma forte identidade soviética. No último domingo, não houve rodada da torneio nacional por conta das eleições, vencidas pelo governante com 80% dos votos. O problema está que maior parte da União Europeia e seus adversários políticos contestam o resultado do pleito alegando que a eleição não foi livre e sequer justa.

Dado o contexto vamos a outros fatos que corroboram pensar o problema proposto. Junto com Nicarágua, Tadjiquistão e Turcomenistão, o torneio de Belarus não parou por conta da pandemia. O governo considerado o último ditador da Europa (será que é o último?) trata com constrangimento e rigor à margem da lei seus opositores. Este mesmo governo sugeriu ironicamente o uso da vodka como barreira a Covid-19. Um cenário formado de truculência política e negacionismo científico. E o torneio nacional serve de palco para propaganda governamental e defesa da “vodka”.

Os últimos dias na capital Minsk foram marcados por protestos contra o resultado das eleições e também contra o governo. A imprensa europeia tem chamado este movimento de Marcha pela liberdade. Nome sugestivo diante dos mais de 7 mil opositores presos na marcha. A União Europeia se mostra contrário ao governo enquanto que Rússia de Putin o apoia. Como medida restritiva, o governo exigiu o apoio da imprensa nacional e fechou as fronteiras.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio
A continuação do futebol durante a pandemia pode ser uma chave para entender o movimento governamental de Belarus. A mídia local abriu espaço maior ao torneio que o controle sobre a pandemia e os assustadores números da morte. Não cabe críticas aos veículos de imprensa isoladamente, é preciso vê-los no contexto de repreensão política. Ao evidenciar o torneio e invisibilizar a pandemia, o futebol é pensado como arma negacionista. O uso dele enquanto
propaganda normaliza uma vida que já não existe. Enquanto se discute a liderança surpreendente do Shakhter Soligorsk e corrida do BATE Borisov para manter a hegemonia, normaliza-se a ausência do cuidado, o colapso do sistema de saúde local e o não se fala do número de mortos locais. E ainda quando se encontra dados ele são camuflados, como a defesa pela vida o é.

O futebol se torna instrumento político a partir do momento que os líderes do esporte e a mídia esportiva casam um discurso de negação da realidade em favor de “Oz”. Negar a realidade não é mentir, ou simular “fake news”, mas, simplesmente é ignorar o que ali está. Ignora-se uma pandemia enquanto se faz jogar. Deixa-se frequentar os estádio para mostrar ao público uma mensagem não verbalizada: tudo está normal. Como se tudo isso não bastasse, o final de semana seguinte ao pleito acontece a Rodada 22 do torneio. Há o caos político e a população nas ruas. Parte da imprensa entrou em greve durante a semana. A outra parte que opera continua a destacar a rodada, os gols e o torneio.

“Não importa nada, nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon. Ninguém, ninguém é cidadão! Se você for ver festa do pelô, e se você não for, pense [na Belarus], reze [pelo Belarus]” (Caetano Veloso).




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