Coluna do Professor #319, por Albio Melchioretto

(Reprodução)

BRIGA ENTRE TURNER E GLOBO PROMETE UM CAPÍTULO ANTIPROFISSIONAL

A reflexão que propomos na coluna de hoje pensará o que significa falar em profissionalismo no futebol. Nosso foco está na briga prometida pela Turner a partir da Medida Provisória 984/2020, onde alguns dos clubes que já se pronunciaram a favor dos contratos assinados, de acordo com o que já foi anunciado aqui pelo site. Para recordar, de acordo com a tabela já divulgada do Campeonato Brasileiro, a Turner promete passar jogos de seus assinados contra clubes com vínculo já acordado com a Rede Globo. A independer da MP, há contratos em vigor e ela não se sobrepõe ao já assinado.

O que está em jogo, não é o mostrar ou não mostrar jogos, mas uma postura de profissionalismo e de forças de poder que atravessam o território do futebol. Ao pensar estas forças seria interessante nomear três campos de atuação, por assim dizer. A primeira força é a competição em si. Os clubes duelam para medir forças onde os maiores pontuadores são premiados e os menores rebaixados, são forças de mais fortes e mais fracos. O segundo campo está na gestão. O duelo está na atração de patrocinadores, sócio torcedores, melhores contratos. O campo gestor mede forças para se apresentar qual é a melhor vitrine ao mercado. O nos que leva ao terceiro campo. Se a gestão tiver uma maior força, ela tem um poder de atracão financeira maior. Vide por exemplo, os rankings de clubes de maior valia ao longo do planeta, não é atoa que ingleses e espanhóis despontam. A soma destes três campos de atuação permite comparar qual campeonato é melhor que outro. Algo parecido, utilizamos na Coluna #314 como os direitos de transmissão categorizam os campeonatos.

O profissionalismo no futebol consiste em pensar os campos de atuação como um modelo de negócio. Não é suficiente dizer que um atleta pago faz do futebol uma entidade profissional. Há muitos jogadores de várzea que são pagos para disputar torneios citadinos. Mas isto constitui uma relação salarial diferente do futebol dito profissional. Mas ainda sim, pagos. Podemos apontar quatro níveis de profissionalismo no futebol. O primeiro, como já mencionado, o atleta assalariado e com ele, a comissão técnica. O segundo nível, a equipe gestora. Vários clubes mostram bons e maus exemplos. Mas o fracasso de alguns modelos e a paixão de torcedores/dirigentes, em outros, não eliminam este nível. O comando do futebol necessita de chaves metodológicas para bem gerir o campo. O modelo de franquias da MLS (Major League Soccer) é um bom exemplo. A mídia constitui o terceiro nível de profissionalismo. Uma cobertura de fatos com apuração, reflexão e investigação para divulgação de notícias. Obviamente que excluímos deste nível a mesaredontização de torcedores na televisão, rádio e youtube que focam apenas na opinião rasa. O profissionalismo na mídia exige dados, estatística e conhecimento de campo, e não a vontade de torcedores com crachás de empresa. Há um outro nível, que no vazio dos estádios deixamos despercebidos, que é o torcedor profissional. Aquele membro de torcida organizada que é bancado por clubes, empresas, associados como torcedor de todo jogo, aquele que acompanha o time com ingresso e viagem paga.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio
Todos os quatro níveis de profissionalismo são atravessados por forças de poder que se manifestam nas intencionalidades das ações. O futebol é um espaço de múltiplas interações e intencionalidades. Um clube ao se declarar contra ou a favor de alguma lei ou reivindicação, não o faz pelo bem do futebol, mas pelas intencionalidades que o cercam. E isto está em todo nível. Vide a briga pública que foi a volta do Campeonato Carioca no Rio de Janeiro. No tempo de profissionalismo e intencionalidades não há mais espaço para o futebol folclórico. Por exemplo, não tem sentido propor viradas de mesa, como foram os anos 1980 e 1990, só para citar um caso, o vice-campeão brasileiro de 1986, disputou o segundo módulo da Copa União de 1987! As brigas de liminares entre Globo, ESPN Brasil pelo Brasileirão de 1997 ou ainda, a Globo e o SBT no Paulistão de 2001. O jogador boleiro, também entra neste pacote. Faz sentido esta postura folclórica de justificar tantas aberrações?

Dito tudo isto, caberá ainda, no futebol profissional a proposição da Turner em mostrar jogos do Brasileirão com clubes no qual está em vigor um contrato com outra emissora?

DICA CULTURAL:

A universidade, apensar da crítica infundada dos negacionistas, produz conhecimento e reflexões com rigor acadêmico. Ela se apropria muito do futebol. Uma pena o futebol profissional não se apropriar deste tipo de produção de conhecimento. Abaixo indico a leitura de um bom artigo que analisa as relações entre jogadores e treinadores.

CAVALCANTI, Everton de Albuquerque; OLIVEIRA, Vinicius Machado de; SOUZA, Juliano de; et al. Poder e corrupção no futebol: memórias acerca da relação atleta- treinador sob o ponto de vista de futebolistas paranaenses. Revista de História Regional, v. 25, n. 1, p. 103–122, 2020. Disponível em https://revistas2.uepg.br/index.php/rhr/article/view/14510/209209213466.
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