Coluna do Professor #230, por Albio Melchioretto


VOCÊS DA IMPRENSA, PARTE 2, ONDE ESTÃO AS PERGUNTAS?

Quero voltar ao tema da coluna passada, quando questionava o uso do “vocês da imprensa” e das generalizações que tal possibilidade apresenta. Tomo como ponto de partida a morte trágica e prematura de dez pessoas no Ninho do Urubu e do somatório de falhas que ainda não foi devidamente explicado a sociedade brasileira. O que tem me incomodado profundamente é a visão vitimista do Flamengo que “vocês da imprensa” tem usado. Nesta semana vi poucas vozes se levantarem de maneira mais forte contra o clube e poucas reportagens que são de fato investigativas. Tudo até agora, tratado em banho maria e nós, sociedade brasileira, exigimos uma resposta, é uma questão de respeito e de honestidade.

Colunista repercute cobertura da imprensa no caso da tragédia no CT do Flamengo (Reprodução/SporTV)
Nas primeiras horas após o acidente, o que me pareceu evidente, foi a cobertura factual. Repórteres de vários canais, esportivos; abertos e news ficando horas ao vivo, muito bem lembrando pelo colunista Carlos Salvador em sua coluna. A primeira ação foi dar conta da ânsia por respostas imediatas. Mas a partir disto, faltou o passo seguinte, que seriam as apurações, a busca pelo furo, o trazer a tona informações que façam o grande público entender o tamanho da tragédia e da irresponsabilidade de diversas partes. Este tipo de reportagem está em falta. Seria mais produtivo que focar no escudo do Flamengo na camisa do Vasco. O Flamengo não é a vítima, mas o irresponsável em questão do acidente. O Flamengo está para o incêndio, como a Vale está para Brumadinho e a Samarco para Mariana. Em todos os casos, é claro como a ganância que desrespeita a vida prevalece. Será que o capital vale mais que o ser humano?

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@professoralbio
Mas há uma crise de silêncio diante dos mandatários do Flamengo. Uma aceitação do descaso, do não pagamento das multas; da construção irregular. Um país sério, a honestidade prevalece diante da fiscalização. A reclamação constante de falta de fiscalização desvela uma ação desonesta, quase que perene, senti falta de perguntas na coletiva que exija honestidade. Urge substituir o silêncio por perguntas diretas. Nestas horas a voz do repórter é a voz da sociedade, por isso dever-se-ia indagar os mandatários e fazê-los enfrentar um coquetel de perguntas. Mas parece que virou moda neste país, monólogos estúpidos para justificar a própria fraqueza para um desvio de foco. Isso acontece, tanto no futebol, quanto na política.

Não quero questionar a ação em si, embora a minha indignação esteja nas entrelinhas, mas, questionar o olhar evasivo e a vitimização do Flamengo. Diante de tudo isto, sinto falta de um jornalismo investigativo sério, que não se calque em conclusões precipitadas e vá ao fundo, não apenas no Ninho do Urubu, mas mostre o descaso brasileiro para com o próprio futebol. Jogos mal cuidados; salários atrasados; condições indignas de vida. O futebol dos pequenos e da base passa longe do glamour de uns poucos e seus parças. Se tivéssemos reportagens ao invés das intermináveis mesas de debates; se houvesse um olhar sério de denúncia diante da base e dos pequenos, em vez de discutir a seleção pós-Pelé, teríamos um futebol de melhor qualidade. A mídia, e agora generalizo sim, também é responsável pelo descaso do futebol brasileiro. Quando não aparecem vozes de contestação, qualquer voz torpe também é aceitação.

E o que aprendemos com o somatório das tragédias deste ano?

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Coluna do Professor #230, por Albio Melchioretto Coluna do Professor #230, por Albio Melchioretto Reviewed by Ribamar Xavier on domingo, fevereiro 17, 2019 Rating: 5

2 comentários:

  1. " Se tivéssemos reportagens ao invés das intermináveis mesas de debates;"

    Isso não da audiência, por isso os canais focam nos bate boca sobre futebol o dia inteiro.

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