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Livia Laranjeira fala da cobertura da tragédia da Chape; 'pensava no acidente o tempo inteiro'

Livia Laranjeira foi a primeira brasileira a noticiar a tragédia na TV (Reprodução)
Foram quase 24 horas no ar, sem comer e sem dormir. Mesmo assim, Livia Laranjeira segurou as pontas e conseguiu fazer um trabalho impecável. Com isso, a repórter do SporTV entrou para a história do jornalismo. Ela foi a primeira brasileira a noticiar na TV a queda do avião da Chapecoense que resultou na morte de 71 pessoas. Ao UOL Esporte, por Leandro Carneiro, a jornalista demonstrou ter conhecimento de que o trabalho foi bem feito, mas voltar para casa e ter tempo para pensar na tragédia foi uma dificuldade a mais para superar tudo que viveu na Colômbia.

“Fiquei de folga nos dias seguintes ao retorno, não tinha muitos compromissos e pensava no acidente o tempo inteiro. Ali que foi caindo a ficha, na volta ao Brasil. Foi difícil nesse sentido. Difícil foi essa chegada, por muito tempo, as pessoas encontravam, amigos, colegas, falavam disso, até hoje ainda falam. Não me incomodo, gosto de lembrar, contar como foi, mas fico falando que preciso me libertar disso, falar outros assuntos para começar a cicatrizar em mim. Primeiros dias foram difíceis por causa disso”, disse.

Sem tempo para comer ou dormir, Livia contou com a ajuda da resistência do seu corpo e de alguns colombianos para conseguir noticiar tudo que acontecia. Da porta do hospital, a repórter sofria a cada sirene de ambulância em busca de informações sobre os sobreviventes da tragédia.

“Confesso que não lembro direito como foram minhas entradas ao vivo naquele primeiro dia. Da madrugada do dia 28 até a noite do dia 29. Se alguém me perguntasse se eu conseguiria, falaria: ‘imagina, não conseguiria, que loucura ficar tanto tempo sem dormir, sem comer’. Fiquei o dia sem comer, entrando ao vivo uma atrás da outra. Parece que corpo entende que a situação é mais importante que sentir fome, sentir sono. Meu corpo não deu sinais de cansaço em nenhum momento. Eu fui meio que no automático. Sabia o que precisava falar. Repetia para mim mesma a informação que eu tinha”, afirmou Livia que entrou ao vivo no SporTV, Globo, Globo News e RBS neste dia.

“Não sei como me segurei, não sentia sono, não sentia cansaço. Fui, se precisasse continuar, teria continuado. Você só sente depois que volta para o hotel, toma banho. Mas na hora, vai embora”, completou.

Para superar toda essa dificuldade, ela contou com ajuda dos habitantes locais. Ao falar sobre os colombianos, a jornalista lembra de uma atitude simples de uma senhora na porta do hospital.

“Naquela noite, tinha muita imprensa no hospital, todo mundo foi para ali meio no susto. Ninguém estava preparado. Eu estava só com blusa de manga comprida. Lá faz mais frio que em Medellin e choveu muito. Sai só para fazer materinha e voltar para o hotel. Não estava preparada para aquele frio todo. Assim como eu, tinha mais gente despreparada. Gente que não dormiu, gente que não tinha jantado, sem carregador. Todo mundo foi pego de surpresa e teve de ir para lá do jeito que deu. No meio daquele momento, com informações desencontradas, tudo parecendo caos. Chegou uma senhora, que morava perto do hospital, com bandeja de café e chá. É tão simples. Ela não ofereceu um banquete, mas aquele café, aquele chá, no momento que estava todo mundo tão abalado, transtornado, aquele café foi tudo que a gente precisava para segurar. Vamos continuar firmes, alertas. Não sentia sono, mas tinha de estar muito ligado com a questão das informações”, relembra.

Livia sempre fala com carinho ao lembrar da atitude dos colombianos. Uma das cenas marcantes da cobertura foi quando a jornalista, que já tinha saído do ar, foi às lágrimas com o carinho de pessoas que acompanhavam a saída dos caixões.

“O dia que fui abraçada foi particularmente difícil. Um dos mais tristes dentro daquela cobertura que foi muito triste. Quando você entra em uma funerária e vê 50 caixões de gente que você conhecia, jogadores com quem convive, comissão técnica, assessoria de imprensa, jornalistas. Foi muito traumático. E depois fazer a saída deles, num cortejo fúnebre. Aquilo tornou real a tragédia inteira. Você sabe que aconteceu mesmo, mas ver os caixões tornou muito real. Eu já estava emocionada, estava difícil”, disse.

“Fiz entrada dentro do Seleção narrando a saída dos carros e quando os carros terminaram, devolvi para o Barreto (Marcelo) e terminou minha participação. Mas a gente não derrubou o sinal. Então, o SporTV continuava recebendo o sinal, mas não estava no ar. Quando viram as pessoas me abraçando, colocaram no ar. Eu não sabia, só fui saber depois. Até por isso, acabei me entregando mais, me soltando um pouco. Quando está ao vivo, tento controlar. Ninguém julgaria uma pessoa que se emociona num momento daquele. Mas você tenta segurar para a informação não ser prejudicada. Naquela hora, eu meio que desabei, as pessoas começaram a cumprimentar, a mim e ao Fabricio Crepaldi, produtor. Dava para ver que estava doendo neles, que era sincero, não estavam simplesmente para aparecer na TV. Eles estavam sentidos. Uma senhora que nem é a que aparece no vídeo, falou: ‘nosso coração morreu com eles’. Quando ela falou essa frase, eu desabei, já estava muito emocionada, muito abalada. Na hora falou essa frase, eu desabei, comecei a chorar. Tentei sair da câmera porque comecei a chorar muito. Aí a senhora que aparece no vídeo viu e veio me abraçar. Foi muito bonito, porque você tira força de lugar que não imagina. Foi momento de muita humanidade, solidariedade, na forma mais pura da coisa. Muito bonito, muito emocionante”, complementou.

Terminar a cobertura da Colômbia não aliviou a dor sentida por Livia. Voltar ao Brasil e ter tempo livre, fez com que ela pensasse no acidente o tempo inteiro.

Livia ainda revelou que um de seus planos pra 2017 é ter a oportunidade de acompanhar a Chapecoense. E foi ela quem estava no primeiro grande desafio do time na última terça-feira quando a equipe eliminou o São Paulo da Copinha nos pênaltis.

“Ter feito parte dessa cobertura da tragédia é uma coisa que me marcou para sempre. Eu acho que sempre vou ser a primeira jornalista brasileira que chegou lá. Olham para mim, neste momento, vai me acompanhar na minha carreira. Me marcou demais, me transformou profissionalmente. Sobre desejo para carreira: quero continuar acompanhando a Chapecoense dentro do possível”, finalizou.

Além de Livia Laranjeira, a primeira equipe brasileira do SporTV contava com Fabricio Crepaldi, produtor, e Erci Morais, cinegrafista.

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