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Lívia Laranjeira fala sobre cobertura do acidente com o avião da Chape

Repórter Livia Laranjeira (Reprodução)
Repórter encarregada por fazer a cobertura do trágico acidente com o avião da Chapecoense para a Globo e o SporTV, Lívia Laranjeira contou na edição desta sexta-feira (23), do 'Redação Sportv', os bastidores da difícil experiência profissional. Ela foi a primeira repórter brasileira a estar na Colômbia e relatar a tragédia e chegada de sobreviventes aos hospitais de Medellín. As informações são do UOL Esporte.

''Passei a semana anterior ao acidente em Chapecó (SC). Lá eu fiz o jogo (da Chapecoense) contra o São Paulo, cobrindo o São Paulo, fui fazer o jogo e fiquei a semana inteira lá. Fiz o jogo da Sul-Americana contra o San Lorenzo, a segunda semifinal que garantiu a vaga na final pra Chapecoense e como tinha a questão também da Chapecoense fazer aquele jogo decisivo contra o Palmeiras, que poderia ser o jogo do título (brasileiro), e acabou sendo pro Palmeiras, a chefia de reportagem do SporTV decidiu me manter em Chapecó até o final daquela semana. Então eu fiz a cobertura da Sul-Americana e continuei para fazer a cobertura de qual era aquele time que podia ser decisivo para o título do Palmeiras. Passei uma semana exatamente em Chapecó antes de ir a Medellín fazer a final'', iniciou.

Mensagem em vestiário da Chape por vaga na Libertadores

''Eu reparei isso antes do jogo contra o San Lorenzo. Eles tinham ali colocado no vestiário uma mensagem de superação assim pra tentar incentivar os jogadores pra conquista da vaga da Libertadores. Esse era o grande objetivo que pude perceber no elenco da Chapecoense. É claro, o título da Sul-Americana, era óbvio que todo mundo queria um tútulo internacional e aí eles tinha essa mensagem com palavras, com frases para estimular os jogadores a se dedicarem ao máximo pra conquistar essa vaga. Eles ainda tinham esperança de conquistar talvez pelo próprio Campeonato Brasileiro com a história de um possível G7 dependendo da Copa do Brasil, achavam que podiam chegar à Libertadores pelo Brasileiro. E mesmo quando falavam desse jogo contra o Palmeiras, decisivo pro Palmeiras, falavam: 'Não, a gente não vai facilitar, não, a gente também tem o nosso objetivo que é chegar ao G7, G6″, recordou.

Início da cobertura da tragédia

''Eu tava em um hotel, em Medellín (COL), onde o time ficaria hospedado. Tava esperando a chegada deles, então tinha feito um vivo no (telejornal) Sportv News – Edição Noite, falando da expectativa da chegada e continuei lá pra registrar a chegada. Eram por volta de 22h30 do horário local, três horas a menos que o Brasil, então 1h30 no horário do Brasil. E aí tinham ali alguns funcionários, sócios de uma empresa de logística que os times brasileiros contratam quando vão jogar fora do Brasil. Essa empresa é responsável por fazer todo o translado num outro país. E estavam aguardando também a chegada dos jogadores lá no hotel e foi o sócio dessa empresa, um brasileiro, que nos acordou. Éramos a única equipe brasileira esperando no hotel, tinham ainda algumas equipes de imprensa colombiana, e ele nos abordou um pouco atordoado, também, e deu pra sentir na cara dele que era alguma coisa séria, e ele falou pra gente: 'Olha, aconteceu alguma coisa, a gente não sabe bem o quê, a torre de controle (do aeroporto em Medellín) perdeu o contato, perdeu comunicação com o avião da Chapecoense'. Tava com o produtor Fabrício Crepaldi e com o repórter cinematográfico Erci Morais e todo mundo se olhou meio incrédulo e imediatamente pegamos o equipamento que tínhamos ali e entramos no primeiro táxi que pareceu, meio sem discutir, sem conversar. Foi por inércia assim. levantamos, pegamos as coisas e fomos pro táxi já a caminho do aeroporto pra tentar descobrir mais'', relembrou.

''Enquanto isso – continuou -, o Rodrigo, que era esse sócio da empresa de logística, indo em outro carro, se comunicando com a gente, atualizando o que recebia de informação. E aí naquele longo caminho até o aeroporto a gente já sabia que tinha um acidente confirmado, ainda sem informação sobre a gravidade. Falavam em várias vítima e a gente falava: 'Bom, se tem várias vítimas, sobreviventes, talvez não tenha sido tão grave assim, talvez tenha sido um pouso forçado'. Aí nem ficamos no aeroporto, porque víamos que a movimentação não ia ser ali e fomos pro hospital e lá a gente acompanhou a chegada do Alan Rushell, depois do Rafael Henzel e depois já de manhã do Neto. A gente já percebeu que estava demorando muito para chegar sobreviventes, as equipes já tavam no local do acidente. Quer dizer, se tivesse mais gente já saberia e aí que foi caindo a ficha que era bem grave.''

Emoção e solidariedade por carinho colombiano

E Lívia prosseguiu: ''Passei a madrugada inteira, a gente não dormiu aquela noite, né, fomos direto pro hospital. Passei a madrugada inteira meio anestesiada, só repetindo as informações e aí meu último trabalho daquele dia foi uma participação ao vivo no Jornal Nacional. E aí eu saí, naquele momento haviam chegado outras equipes da TV Globo e do Sportv em Medellín, então eles assumiram a segunda parte daquele dia de trabalho e aí quando acabou o Jornal Nacional eu voltei pro hotel e aí foi no hotel que desabei assim. Uma parte de mim queria ver o que tava sendo divulgado no Brasil, compartilhado, as imagens que estavam recebendo, mas quando via essas imagens eu ficava muito pior, então tentava me blindar, não ver tanto, mas precisava ver, também. Foi muito difícil querer me informar, e precisava me informar, sem deixar aquilo me afetar tanto. Foi bem, bem complicado. Quando cheguei no hotel, de volta desse longo dia de trabalho, já tinha no elevador do hotel uma foto, uma placa no elevador de homenagem à Chapecoense, uma mensagem de luto. E naquele momento vi que, nossa, realmente eles abraçaram. Tinha uma senhora já nas primeiras horas da madrugada com uma bandeja com café e chá e chocolate, distribuindo pra imprensa. A gente começou a se sentir muito acolhido e de alguma forma aquilo nos ajudou a não sentir tanto o baque da notícia, mas na hora que cheguei eu desabei.''

A jornalista contou no programa do Sportv sobre as demonstrações de solidariedade do povo colombiano e do quanto aquilo ajudou a ela e demais profissionais de imprensa na realização do duro trabalho.

''Um caso que ficou muito marcado, nosso produtor Fabrício até compartilhou no Twitter e ganhou uma proporção muito grande. A gente tava caminho do IML ou da funerária, se não me engano, e a gente pegou um táxi no hotel, com câmera e todo o equipamento, o taxista percebeu que a gente era brasileiro , estávamos falando em português, e começou a perguntar se estávamos lá por causa do acidente, a gente foi contando e aí no finam da corrida ele não quis cobrar, não queria que a gente cobrasse de jeito nenhum. Não só não quis cobrar como queria que a gente anotasse o telefone dele para ligar, quando acabasse o nosso trabalho naquele dia, que ele ele iria buscar a gente também sem cobrar. A gente, claro, acabou pagando mesmo assim, agradecemos. Eles todos estavam muito abalados, muito tocados por tudo que tinha acontecido. Pegou de surpresa porque pra gente a tragédia era nossa, uma tragédia do Brasil, e a tragédia virou colombiana, também, eles abraçaram o que aconteceu e viveram isso com a gente. Eu riz a saída do cortejo fúnebre, eram quase 50 carros levando os caixões dos brasileiros, da funerária até a Base Aérea de Rio Negro, fiz ao vivo pro Sportv, e começamos a ser abordados, eu e o Fabrício (produtor), por colombianos que tinham ido às ruas pra prestar uma última homenagem, para se despedir dos brasileiros e eu fiquei muito emocionada porque era gente sofrendo tanto quanto a gente, era gente querendo dar algum tipo de consolo, de conforto e foi bem bonito.''

Sentimento de revolta, crítica ao machismo e tatuagem em homenagem

Por fim, Lívia comentou sobre a dificuldade de lidar com sentimentos, até de revolta, por conta das informações sobre possível causa do acidente, relacionadas a combustível insuficiente para aquela viagem do avião da Chape. ''Deu muito raiva, mas do mesmo jeito que fiquei anestesiada pela tristeza, fiquei pra raiva, também. Não conseguia sofrer, pensar muito, mas gostaria muito. Quando voltei ao Brasil, tive uma série de sentimentos que estavam guardados. (Quando você está na missão da realização do trabalho), não sente.''

Em seguida, o apresentador do Redação Sportv, André Rizek, lembrou ali que em 62 edições da premiação da personalidade do ano da revista norte-americana Sports Illustrated, apena oito vezes uma mulher foi eleita, sendo que somente em três oportunidades mulheres foram capa da publicação sozinhas, com as outras cinco que foram destaques dividindo com homens. Então, ele quis saber da repórter sobre como ela vê o machismo no meio esportivo.

''Até hoje a gente vê a cobertura esportiva falando muito do papel da 'musa', né? Sempre que tem um grande evento são as 'musas do esporte, o destaque é sempre pros atributos físicos e quase nunca pro talento, para a habilidade esportiva'', criticou Lívia.

''Até por isso, quando abriram aquela eleição para definir quem seria o porta-bandeira da Olimpíada, o meu voto foi da Yane Marques. E muita gente falava: 'Yane Marques, ninguém conhece, ela foi só bronze em Londres'. Pra mim isso pouco importava e era muito mais marcar uma posição ali, ter uma mulher, brasileira e nordestina, carregando a bandeira do Brasil. Claro, Serginho (vôlei) e Robert Scheidt (vela) são personagens muito importantes e merecem todo o reconhecimento, mas falta na imprensa esportiva em geral, no mundo, destaque pros feitos das atletas mulheres'', opinou.

''Vou fazer uma tatuagem para homenagear essas pessoas'', prometeu Lívia, encantada com o carinho dos cidadãos de Medellín e colombianos em geral, durante a cobertura. ''Quero fazer de hortênsias. A região do acidente tinha muita plantação (desse tipo de flor) e a minha ideia é fazer uma tatuagem de hortênsias para marcar essa que foi uma experiência transformadora e pessoal. Cresci muito profissionalmente, mas também pessoalmente. Quero voltar a Medellín, a passeio. Fiquei muito envolvida, encantada com a cidade e com as pessoas. Quero voltar com mais calma'', finalizou sua participação.

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