Albio Melchioretto #117: Chuva em Chapecó era lágrimas de Deus

'A mídia esportiva e jornalista não foi o que ela costuma ser, ele foi humanamente sensível", diz colunista sobre cobertura da tragédia do voo da Chape (Reprodução)
Quando a irmã morte chama, não há como dizer não! A expressão irmã morte foi usada por Francisco de Assis, no século XIII. Mas que irmã ingrata é esta? Aliás, ele sempre é assim. Se dependesse de nós, nunca abriríamos as portas a ela. Neste caso, nem foi preciso abrir as portas, ela forçou as paredes e levou para si e deixou um vazio muito grande. Leonardo Bertozzi, muito bem lembrou, ao citar Carlo Bergoglio, “talvez fosse maravilhosa demais essa equipe para envelhecer. Talvez, [a irmão morte] quisesse leva-lo no ápice de sua beleza”.

Desde que vi a Chapecoense, na série D, superar o meu clube citadino, comecei a acompanhá-la e torcer. Na segunda, havia feito os últimos preparativos para levar um amigo a Curitiba para assistirmos juntos a grande decisão. Na manhã seguinte o choque, entre lágrimas tentava entender o que era aquilo no ‘Hora1’, mentindo para mim mesmo que pudesse haver sobreviventes, que aquilo tudo não fazia sentido. Trocava de canal numa esperança inexistente de que tudo não passasse de um engano. Mas a irmã morte não se enganou. E as notícias se repetiam, tela após tela.

Albio Melchioretto
albio.melchioretto@gmail.com
@amelchioretto
Só a irmã morte para fazer canais citarem uns aos outros. Por que só nela há tamanho respeito?

A mídia fez seu papel, mas não era uma cobertura qualquer. Não sei explicar o que aconteceu. Por volta das nove horas, acompanhei o ‘Café com Jornal’ e vi uma discussão sobre o futuro do futebol do verdão e sem pensar tuitei, “penso ser falta de sensibilidade discutir o futuro do futebol da Chapecoense neste dia. O momento é para viver o luto e não a bola.” Sim, o luto, e a imprensa viveu este luto como nenhuma outra vez foi registrada. Vi jornalistas de todas os lados chorarem ao vivo, lágrimas caindo sem constrangimento, como estas que caem agora enquanto escrevo. A mídia esportiva e jornalista não foi o que ela costuma ser, ele foi humanamente sensível. Pouco importa quem vai cair, quando o Palmeiras vai levantar a taça, porque neste campeonato não há vencedores e nem haverá perdedores, apenas um grande vazio... A coluna do Alípio Jr, aqui no site, foi o não-escrito mais lindo que li. A tela preta, a não-imagem, do Fox Sports, foi a imagem mais forte. As ausências, nestes dois momentos, mostram toda a presença da dor.

Vivi para ver a irmã morte levar a beleza de um time sem craques, mas de jogadas bonitas, de empenho, de garra, de coletividade e motivação. Um modelo de gestão, de técnica que é um futebol simples, mas que Deva Pascovicci muito bem sintetizou, era o futebol do “espírito do Condá”. No último jogo da Chapecoense, critiquei em minha página que ela não era o Brasil na Sul-Americana, me enganei. Hoje ela é o Brasil no mundo, nos milhares de uniformes, nos milhares de homenagens, nas hashtags, a Chape, sou eu e é você...

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
(Vinicius de Moraes)


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Albio Melchioretto #117: Chuva em Chapecó era lágrimas de Deus Albio Melchioretto #117: Chuva em Chapecó era lágrimas de Deus Reviewed by Ribamar Xavier on 5.12.16 Rating: 5
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